O que e a Psicofarmacologia?

E o que ela tem a ver com a Neurociência?

 

A psicofarmacologia é o estudo dos fármacos utilizados nas diversas patologias psíquicas, seu mecanismo de ação no sistema nervoso central (SNC) e comportamentos dos indivíduos que os utilizam. Originou-se na década de 50, com a descoberta de um antipsicótico (clorpromazina), posteriormente houve outras descobertas: ansiolíticos, antidepressivos, estabilizadores de humor, hipnóticos, estimulantes e outros.

 

Dentro da psicofarmacologia há o estudo dos medicamentos psicotrópicos (também podem ser chamados de neurotrópicos, psicoativos, etc.), que são substâncias químicas, naturais ou sintéticas, capazes de modificar a atividade mental, excitando, deprimindo ou provocando uma ação perturbadora no Sistema Nervoso Central.

 

O tratamento com psicofármacos possui quatro estágios: o inicio (começo do tratamento), a estabilização (momento em que o paciente atinge a homeostasia – equilíbrio - de acordo com administração dos medicamentos), a manutenção (período em que ocorrem os ajustes da posologia para manter a homeostasia) e a retirada (momento em que o paciente não necessita mais do medicamento, pois o organismo já se restabeleceu). Nesse tratamento é fundamental a presença da equipe de saúde multidisciplinar para acompanhar o paciente e para que ele tenha êxito em cada um dos estágios mencionados, devido à complexidade neuroanatômica e das psicopatologias que o paciente deseja tratar.

 

Atualmente muitas pessoas utilizam os medicamentos psicotrópicos de forma indiscriminada, não levando em conta os horários e doses adequadas, assim como sem ter o conhecimento do real efeito do medicamento. Por isso a importância da presença dos farmacêuticos, médicos, psicólogos, fisioterapeutas e demais profissionais da saúde para promover o uso adequado do medicamento (seja na prescrição, no caso dos médicos, quanto na divulgação das informações científicas, no caso dos outros profissionais da saúde). 

                                                                                                                             Mitzi Abi-Haila

USO INDISCRIMINADO DA FLUOXETINA

Em meados de 2008, pesquisadores da Unifesp publicaram um artigo falando sobre os indícios do uso inadequado da fluoxetina. Vou discutir ao longo desse breve texto os resultados que sempre venho alertando aos alunos, colegas da equipe multidisciplinar, pacientes e pessoas em geral.
Inicialmente coletaram as receitas especiais retidas em 13 farmácias de manipulação (16.124 receitas especiais) e em 27 drogarias (23.658 receitas especiais) em diferentes regiões de Santo André. Cada receita especial foi analisada em relação à presença de fluoxetina, em associação ou não a outros princípios ativos, e o sexo do(a) paciente. Desse levantamento das 39.782 receitas especiais examinadas, 10.919 (27,4%) continham a fluoxetina. Em relação ao gênero dos pacientes: 87,2% das prescrições de fluoxetina eram destinadas para as mulheres, e somente 12,8% para os homens. Diferença estatística significativa.
Dentre as receitas das farmácias de manipulação observou-se a presença de outras substâncias psicoativas mais comumente associadas à fluoxetina eram prescritos benzodiazepínicos (62,5% das prescrições), anoréticos anfetamínicos como fenproporex, anfepramona e mazindol (45,8%) e um amplo número de outras substâncias como extratos de plantas medicinais, hormônios, diuréticos, laxantes, vitaminas, sais minerais etc. Este fato merece ainda destaque pois nessas prescrições aparecem substâncias que não são comumente indicadas para as síndromes depressivas. Ao contrário, essas associações estão quase sempre presentes em fórmulas magistrais para indução de anorexia, visando à perda de peso: uma finalidade inadequada, sem uma relação risco-benefício que as justificassem.
Antes de tudo faz-se necessário avaliar a relevância, ou seja, a relação risco-benefício com o uso da fluoxetina. Essa substância é um inibidor seletivo da receptação de serotonina (ISRS) de grande utilidade para o tratamento das depressões, mas pode produzir reações adversas graves, inclusive ideação suicida. Basta observarmos em paralelo com o Sistema de Psicofarmacovigilância da Unifesp analisou, ao longo de 3 anos, 15 notificações de reações adversas produzidas por fluoxetina, descritas por médicos psiquiatras, tais como ideação suicida, bruxismo, elevação das enzimas hepáticas, hiperglicemia, alucinação, amenorreia, tremores etc.
O FDA (Food and Drug Administration), órgão dos Estados Unidos condenou o uso da fluoxetina em fórmulas para emagrecer, que inclusive afirmou: "Duas pílulas brasileiras para dieta, a 'Emagrece Sim Dietary Supplement' (também conhecida como 'Brazilian Diet Pill') e a 'Herbathin Dietary' Supplement', fabricadas pelos Laboratórios Fitoterápicos e Phytotherm Sim, contêm drogas ativas, inclusive substâncias controladas, que podem causar reações adversas sérias ou injúria ao paciente, além do mais, ambos os produtos não foram aprovados pelo FDA". A FDA afirma ainda que ambos os produtos contêm várias substâncias, entre elas, "a 'fluoxetina', que está ligada a casos de sérias interações com outros medicamentos e a alguns eventos adversos sérios, incluindo ideação e comportamento suicida em crianças, ansiedade, insônia e hemorragia abdominal".
Essas reações adversas acontecem sem mesmo considerarmos que a associação da fluoxetina com várias outras substâncias aumenta a possibilidade de interações farmacológicas desfavoráveis.

 

Referência
http//www.fda.gov

http://www.repositorio.unifesp.br/bitstream/handle/11600/4761/S004720852009000200005.pdf?sequence=1&isAllowed=y

                                                                                                                  Mitzi Abi-Haila

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