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TREINOS LONGOS DE MARCHA COM BRAIN MACHINE INTERFACE INDUZEM A RECUPERAÇÃO PARCIAL EM PACIENTES PARAPLÉGICOS

 

          O autor principal deste artigo, Miguel Nicolelis, dirige um programa, aqui no Brasil, chamado Andar de Novo, com um time interdisciplinar de profissionais. O programa tem como objetivo tentar criar protocolos de neuro reabilitação em pacientes com problemas crônicos de lesão medular. E esse artigo descreve um desses protocolos, onde foi testada a possibilidade de exercícios de longo período (12 meses) utilizando o BMI (Brain Machine Interface), poder devolver aos pacientes a habilidade de andar, utilizando um exoesqueleto controlado pelo cérebro. Esse equipamento utilizado na pesquisa, consegue, ainda, fornecer aos pacientes um feedback tátil, combinando sensores que são espalhados pelo exoesqueleto, como por exemplo, na face plantar e também na pele do antebraço.

 

A metodologia do trabalho se deu da seguinte forma:

. Oito paraplégicos com diagnóstico há mais de um ano de lesão medular completa.

. O protocolo foi feito nos 12 meses do ano de 2014.

. O protocolo inclui 6 tipos de treino.

1 – Realidade Virtual – paciente sentado, usando a atividade cerebral para movimentar um avatar (com corpo de humano), recebendo feedback visual e tátil. Total de 178 horas.

2 – R. V. em pé – o mesmo exercício com o paciente em pé, segurado por um equipamento “stand-in-table”. Total de 30 horas.

3 – Treino na Esteira – paciente utiliza um corpo de robô, que, além de movimento, faz a sustentação do seu peso, e treina marcha na esteira. Total de 109 horas.

4 – Treino no Solo – utiliza o mesmo equipamento, mas anda no solo ao invés da esteira. Total de 51 horas.

5 – Treino Robótica Esteira – treino de marcha na esteira com aparelhagem robótica, mas controlada pelo cérebro. Total de 134 horas.

6 – Treino Exoesqueleto – treino de marcha no solo, vestindo o exoesqueleto controlado pelo cérebro. Total de 70 horas.

. Em todos os protocolos, menos o 3 e o 4, os pacientes receberam feedback tátil no antebraço todas as vezes que a perna ipsilateral encostava no chão.

. Foram adotadas duas estratégias nos treinos:

                . Inicialmente os pacientes tiveram que imaginar os movimentos dos braços para modular as atividades elétricas, a fim de gerar comandos motores, como “andar” ou “parar”.

                . Depois que aprenderam esse método, passou a treinar a utilizar essas mesmas atividades elétricas para movimentarem seus avatares e os equipamentos robóticos, a fim de movimentar suas próprias pernas.

 

          Durante a aplicação do protocolo, a complexidade das atividades foi crescendo com o tempo, buscando conseguir um controle postural melhor. Foi feito, junto com os protocolos, um programa de treinamento de fisioterapia convencional (força e alongamento) nos 12 meses, totalizando 486 horas. Avaliações clínicas gerais foram aplicadas antes e depois de cada atividade (função cardiovascular, inspeção de pele, avaliação de espasticidade, etc.). Foi feito também, ao longo dos meses, tratamento de osteoporose. Avaliações neurológicas também foram feitas periodicamente, a fim de identificar possíveis mudanças no estado neurológico da lesão medular. Avaliação clínica completa foi realizada antes de o paciente iniciar o protocolo, e foi repetida depois de quatro, sete, dez e doze meses. A avaliação incluiu, entre outros: Aplicação da escala ASIA (avaliação da sensibilidade e função motora verifica se a lesão é completa A ou incompleta E).

                . Avaliação de sensibilidade – temperatura, vibração, propriocepção.

                . Avaliação de força muscular.

                . Questionário McGill de dor.

                . Escala Visual de Dor.

                . Avaliação de Espasticidade.

 

         Após os 12 meses seguindo o protocolo, os resultados da pesquisa indicam que os pacientes apresentaram vários pontos de melhora, como por exemplo, nas funções gastrointestinais, na espasticidade dos músculos, na densidade óssea, etc. Mas o que queremos destacar foram as melhoras nos testes de sensibilidade (apresentando sensações inclusive abaixo do nível da lesão) e as melhoras tanto na propriocepção dos pacientes, como na função motora, onde foi notado pequenas contrações voluntárias de músculos localizados abaixo do nível da lesão. O que é muito importante, pois significa que existe algum tipo de informação passando por ali. Ou seja, pode haver algum grau de recuperação da lesão. É importante elucidar que houve sim uma recuperação parcial dos pacientes crônicos com lesão medular completa, mas que essa recuperação não envolve movimento. Ou seja, não foi detectado movimento dos músculos esqueléticos nos testes, mas sim contratilidade dos músculos.

          Os autores concluem que o estudo corroborou a sua hipótese inicial de que a utilização de BMI em exercícios de longa duração é capaz de mudar a representação cortical do corpo. E este programa de treinamento nos mostrou que houve um processo significativo de plasticidade neuronal e cortical. Eles sugerem que a utilização de BMI deveria ser classificada como uma terapia de neuro reabilitação. E, sugerem ainda que, a repetição desse estudo em paciente que sofreram lesões medulares completas recentes, apresentará resultados ainda melhores.

 

Referências: Miguel A. L. Nicolelis. Long-Term Training with a Brain-Machine Interface-Based Gait Protocol Induces Partial Neurological Recovery in Paraplegic Patients. Scientific Reports Volume 6, agosto de 2016).

                               

                                                                                                                             

                                                                                                                               Lavínia Silveira

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